por Nara Pinilla
A uma simples olhada nos jornais Folha de Pernambuco, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio revela uma representação das comunidades periféricas orientadas por um forte caráter ideológico, que expõe uma evidente influência dos interesses políticos e econômicos da classe dominante.
Ao fazer uma constante ligação de bairros pobres e atos violentos de modo factual, a imprensa não retrata apenas os acontecimentos da cidade, ela descontextualiza uma realidade social de extremos conflitos e injustiças e contribui de modo decisivo para estigmatização dessas localidades. Pouquíssimas são as tentativas por parte da mídia para discutir essa idéia . Como resultado, temos uma impressa parcial, que não representa um espaço para reflexão e discussão e que continua a legitimar as diversas formas de dominação.
O acesso da população pobre para inserir temas na agenda social ou ampliar discussões continua extremamente limitado pelo local que ela ocupa na estrutura de poder. O espaço que lhe é reservado dentro da cobertura diária, sempre ligado a graves problemas de infra-estrutura ou violência, acaba por tornar-se o lugar onde ela se reconhece e por conseqüência onde sua identidade vai gradativamente sendo forjada.
Apesar dos três jornais terem como público alvo classes sociais distintas e priorizarem temáticas diferentes, eles demonstram estruturas políticas e econômicas muito semelhantes: grupos detentores de várias mídias, cujos donos possuem diversos investimentos econômicos nas mais diversas áreas e grande influência política. Quando as matérias abordam a população pobre os enfoques se mostram bastante uniformes independente dos temas priorizados pelos jornais.
Diante disso é possível concluir que mídia impressa recifense faz uma abordagem diferenciada na cobertura de temas ligados a bairros de classe média e comunidades pobres. Tanto no que diz respeito ao número de inserções de matérias, os bairros de classe média recebem mais espaço, quanto no número de fontes consultadas, sempre se cobra do poder público urgência na resolução de problemas em locais mais abastados. Como no local que ele ocupa diante da violência, sempre os moradores ricos da cidade são as vítimas da violência praticada por pessoas que vivem nos bairros periféricos.
Outro fato bastante grave é o modo como os jornais, especialmente a Folha de Pernambuco, explicam a violência. Grande parte dos casos de morte de moradores de comunidades pobres é explicado pelo suposto envolvimento de vítima com tráfico de drogas, brigas de gangues ou dívidas. Esse discurso legitima a violência como uma prática que assume a posição de sinônimo para justiça. Um morador de comunidade pobre é sempre aquele que praticou um ato infrancional, o assassino, o assaltante, o estuprador, o traficante, quase nunca o suspeito, mesmo que não tenha sido preso em flagrante.
Nessa interpretação da realidade a violência aparece descontextualizada da vida social e extremamente personificada. Emerge como um fenômeno praticado por pessoas pobres, não por conseqüência da ausência do poder público e de políticas sociais.
A exploração da violência acaba naturalizando a morte em uma sociedade retratada como insegura por motivações dadas como obscuras e que não são questionadas.
De acordo com o jornais impresso do Recife, dificilmente ações que tragam benefícios para cidade partem de bairros periféricos. Sua função reside em apresentar problemas para cidade. E é justamente por isso que um acontecimento ocorrido nas comunidade pobres da cidade só recebe grande destaque nas capas e editorias quando está em confluência com essa lógica.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
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